O técnico estrangeiro e a xenofobia à brasileira

Gareca é apresentado na nova equipe (Fábio Menotti/Ag. Palmeiras)

Quando o Palmeiras ainda estava sem treinador, Lúcio, zagueiro e capitão do time, deu a entender que não era favorável à chegada de um estrangeiro para substituir o técnico Gilson Kleina. Os motivos são os de sempre: língua, adaptação, choque cultural. Me causa estranhamento uma declaração dessas. Justamente do defensor alviverde, que viveu sua melhor fase na carreira sob a batuta do português José Mourinho e do espanhol Rafa Benítez, em 2010, defendendo as cores da Inter de Milão.

Cobramos, quase sempre, por uma mudança no cenário do futebol brasileiro. Principalmente na mentalidade dos envolvidos. No modo de se ensinar, enxergar e, principalmente, pensar o jogo, cada vez mais chato e previsível. Nada parecido com o que um já dia foi. E isso não é saudosismo. É realidade.

Porém, ainda há uma parcela, assim como Lúcio, que age de má fé, demonstrando autosuficiência quanto à figura do técnico estrangeiro. Como se por ser estrangeiro ele necessariamente não acompanha e não entende nada do que rola nos nossos gramados. Como se o idioma fosse sempre um problema, um dos motivos que alegaram para Guardiola não ser o técnico da seleção após a queda de Mano.

A prova do equívoco é tão gritante que, em 2012, Santos e Palmeiras tentaram a todo custo trazer Marcelo Bielsa. O Verdão ainda insistiu em um novo contato em 2013, para substituir Gilson Kleina, hoje sem clube. No final das contas, o argentino não se acertou com nenhum dos dois, mas surpreendeu jornalistas, imprensa e torcida com o vasto conhecimento que tinha dos clubes daqui. ”El Loco” se destacou por onde passou pela forma inovadora com que armava suas equipes. Outra característica marcante é quanto ao fato de ser um estudioso de esquemas táticos e, muito por isso, vitorioso no que faz.

Acredito que muitos se apegam, ainda, aos insucessos dos gringos que se aventuraram por aqui. Casos mais conhecidos como os de Daniel Passarela, no Corinthians, e Jorge Fossati, no Inter. Recentemente, o Atlético-PR trouxe dois: o uruguaio Juan Carrasco e o espanhol Miguel Ángel Portugal. Ambos não vingaram, a exemplo do que havia acontecido com o alemão Lothar Matthäus em 2006. Mas isso não prova nada. A qualidade, sim.

Somos imediatistas. Sedentos por resultados instantâneos. Vemos na figura do técnico  uma espécie de salvador da pátria ou vilão, capaz de entrar em campo e resolver a parada ou jogar a âncora. O reflexo do péssimo panorama está nos números. Estamos em maio e 130 treinadores já perderam o boné Brasil afora.

Vencedor no Vélez, da Argentina, Gareca tem o desafio de vingar num grande clube brasileiro (divulgação)

O mercado nacional de treineiros está escasso. Nomes inflacionados, e de poucos resultados ao longo de suas carreiras, ainda pipocam constantemente por aí. É um ciclo vicioso. São sempre os mesmos. Com as mesmas ideias. E os mesmos resultados.

Gareca terá no Palmeiras a chance de quebrar um paradigma. De ser a exceção. E chega com bons olhos daqueles que o conhecem. Dirigiu o Vélez Sarsfield por cinco temporadas, nas quais levou a equipe ao tricampeonato argentino. Não é qualquer um. Nem um “superstar da tática”.

A impressão é que alguns brasileiros ainda acham que as cinco estrelas na camisa da CBF significam que somos os melhores. Tanto dentro, quanto fora do campo.

E estamos longe dessa unanimidade. Nos dois quesitos, diga-se…

 

 *Texto originalmente publicado no Ferozes F.C. e adaptado ao Futeboteco.