Não tem mais bobo na América

(crédito de imagem: Jorge Adorno)

Que a primeira rodada da Copa América foi decepcionante, isso não há como negar.

Brasil e Argentina enfrentaram, respectivamente, Venezuela e Bolívia. Todos esperavam goleadas (eu inclusive) e tiveram que se contentar com dois empates murchos. E, falando em empate murcho, se era mais difícil esperar um show da Celeste contra o Peru, a fraca atuação dos uruguaios também não agradou a ninguém.

Só que, na minha opinião, a segunda rodada foi diferente. Colômbia e Argentina fizeram um ótimo jogo, com altas chances para os dois lados. O 0 a 0 foi um detalhe. Bem que poderia ter sido 2 a 2.

E, veja: quem esperava um show da albiceleste nessa partida, se enganava. A Colômbia tem uma boa defesa, enquanto Messi e cia, com Sérgio Batista no comando, tentavam jogar como o Barcelona mas pareciam o Zaragoza.

Aliás, também se enganava quem esperava um chocolate do Brasil no Paraguai. A seleção da CBF ainda está em um estágio muito inicial, não por culpa de Mano Menezes, mas sim em função de sua juventude.

Recentemente o Tostão observou, em sua coluna na Folha, que nunca o Brasil dependeu tanto de jovens jogadores. Antes, quando Ronaldo, Romário e mesmo Pelé (que tinha o Zizinho ao seu lado) estreavam com a canarinho, caras mais experientes seguravam a barra pra eles. Hoje, Robinho não faz isso pra Neymar, Ganso e Pato. Kaká, que poderia fazer, está fisicamente mal. Os “craques experientes” do Brasil estão na defesa e, não à toa, Thiago Silva vem se encaixando com mais facilidade.

A questão é: isso não é motivo para desespero. Eu, pessoalmente, não boto minhas fichas no Brasil. Mas a Copa América não é prioridade. Dunga ganhou o torneio e foi mal na Copa do Mundo. Foi crucificado. Mano pode perder agora para uma surpresa, ou um time mais entrosado, e mesmo assim montar uma base boa pra 2014. Se isso acontecesse, para mim seria ótimo. Por isso, inclusive, acho que temos que dar tempo ao técnico.

Ué! Mas então, a Argentina é favorita? Não acho. Por conta de uma partida contra a Costa Rica, dizem que o Messi “acordou”. Falha grave. Messi é o melhor do mundo muito antes da Copa América. Mas a zaga costa-riquenha é fraquíssima, e a Argentina abriu o placar em um gol achado, o que facilitou as coisas. O time, mesmo, se manteve sem padrão (ainda que tenha melhorado um pouco com Di María).

Mesma coisa com o Uruguai. O time não tem tática, o que me surpreende pois acho Tabárez um ótimo técnico. Fato é que o excesso de raça, que faz milagres contra times mais fortes, não é capaz de dominar times mais fracos, como o México sub-22.

Ou seja, supondo que o Brasil ganhe do Equador (o que, longe da altitude, é mesmo muito provável) e em Venezuela e Paraguai dê empate, as quartas vão pegar fogo.

A Argentina esculhambada e o Uruguai da raça farão um jogo maluco, onde tudo pode acontecer. O Brasil, se pegar o Chile (melhor da Copa até agora), terá um grande teste. Se pegar o Peru ou o Paraguai, ídem. Só terá facilidade contra a Venezuela que, mesmo assim ,já aprontou.

Enfim, já não existem mais favoritos na Copa América. E não porque “não existe mais bobo no futebol”, mas sim porque o campeonato tem boas equipes, e porque a fórmula do torneio favorece acontecimentos estranhos.

Se um cachorro grande empata nos grupos, o que é provável, já que boa parte dos times tem boas defesas (não por causa de retrancas, mas por terem zagueiros que seriam titulares dos grandes times da Europa), pode pegar outro grande, enquanto Venezuela e Colômbia vão avançando. Assim, camisas gigantes, dada a imbecilidade de seus técnicos (caso da Argentina), ou do período de renovação pós-Copa (Brasil), podem cair de forma inesperada.

Por tudo isso, gosto muito da Copa América. É um torneio muito equilibrado. Muitas das seleções que o disputam são tão fortes quanto grandes seleções europeias (pode parecer loucura, mas Paraguai, Chile e Uruguai não devem muita coisa a França, Itália ou Holanda). E já me parece mais do que na hora de rever os critérios de classificação para a Copa. Pense: você prefere ver a Colômbia ou a Eslovênia em 2014?