A mesa desvirou

(crédito de imagem: Futebol Portenho)

Para nós, brasileiros, já é um pouco complicado entender o campeonato argentino, com seu calendário que começa no meio do ano, seus dois campeões, e seu rebaixamento maluco que derruba décimos colocados para a Segundona.

Mas tudo sempre pode ficar pior. Esse ano, o argentino tinha tudo para começar com 38 clubes. Sim, isso mesmo: série A e B, tudo junto.

Se o campeonato dos hermanos é, hoje, dividido em “apertura” e “clausura”, a nova fórmula vinha sendo carinhosamente chamada pelos torcedores de “aberración”.

Isso porque a intenção da AFA (Associación del Fútbol Argentino), claramente, era uma só: salvar o River Plate, clube que tem a segunda maior torcida do país, e que esse ano vai disputar a série B.

Só que o tiro saiu pela culatra. A proposta foi tão bisonha, que o próprio River decidiu se manifestar contra ela. Por meio de seu presidente Daniel Passarella, Los Millonarios emitiram uma nota afirmando que, se foram parar na B dentro de campo, voltarão para a A da mesma forma.

E não foi só o River que se manifestou. Jogadores, técnicos, políticos e, principalmente, o povo – todos fizeram questão de deixar sua revolta muito clara. Até Cristina Kirchner entrou na dança.

Lógico: nem todo mundo aí era santo. Passarella, por exemplo, faz questão de esconder sua má administração jogando a torcida do River contra o presidente da AFA, Julio Grondona (no cargo há 32 anos), acusando-o de pôr arbitragens contra o clube. Entretanto, bom lembrar, o mesmo Passarella já foi carne e unha com o dirigente, principalmente quando era jogador.

E sobre Cristina Kirchner, até é possível chamar sua intervenções de “demagógicas”, visto que trata-se de ano de eleição, e que, dependendo da sua posição no imbróglio, suas chances de vitória poderiam cair consideravelmente.

De qualquer forma, o que importa é: após tuitasso, passeata e o escambal, a AFA teve que voltar atrás. O “aberración” foi engavetado. A mesa, que ia virar, não virou.

E o que nós, brasileiros, que já tivemos a gloriosa Taça João Havelange com seus módulos multi-coloridos incompreensíveis, podemos tirar disso tudo? Ora, muita coisa.

Em primeiro lugar: o governo Kirchner estatizou a transmissão dos jogos dos clubes argentinos. Por meio de seu programa “Fútbol para todos”, a presidenta detonou com o monopólio do Grupo Clarín (a Globosat de lá), praticamente triplicou a receita dos clubes e passou a transmitir TODOS os jogos no canal aberto do Estado (clique aqui para ler mais sobre isso).

É verdade, custou caro. Entendo as críticas de quem diz que esse mesmo dinheiro poderia ser investido em educação, saúde, infra, etc. Mas uma coisa não se pode negar: a medida diminuíu consideravelmente o poder de Julio Grondona, que assim como Ricardo Teixeira, mantinha relações estreitas com algumas emissoras de TV.

E é aí que eu quero chegar: no Brasil, se a CBF quisesse virar a mesa, não tinha conversa. A Globo controla os clubes por meio do milionário contrato de TV que implodiu o C-13. E a Globo apóia Teixeira. Se essa máfia bate o pé, já era.

Aliás, falando em Globo, não é à toa que seu séquito de jornalistas-fantoche decidiu desmoralizar os manifestantes hermanos. André Rizek chegou ao cúmulo de dizer que “esses argentinos protestam contra qualquer coisa”.

É isso que nós, brasileiros, não podemos pensar. Ainda estamos a 3 anos da Copa, e já vimos a aprovação do sigilo das contas, as insenções fiscais da prefeitura de SP para a construção do Itaquerão, a injeção dos cofres do Governo do Estado. Isso é “qualquer coisa”?

Não mesmo.

Quem “desvirou a mesa”, na Argentina, foi o povo. No tuíter, nas ruas. E nos deram uma lição valiosa. Temos que aprender com ela.