Elefantazzo

(crédito de imagem: Reuters)

Em 1964, o Colón, time pequeno da província argentina de Santa Fé, encarou o poderoso Santos de Pelé em seu estádio, o Brigadier Estanislao López. E venceu.

Alguns anos depois, foi o Peñarol de Spencer e Pedro Rocha. Mais uma vez, o inexpressivo rubro-negro argentino derrubaria um gigante, jogando em seus domínios.

Independiente, Boca Juniors, River Plate. Todos passariam pelo estádio, e todos perderiam para o Colón.

Nasceria, assim, a lenda do Cemitério de Elefantes: o estádio onde os grandes caíam.

E se isso não era motivo suficiente para preocupar a Argentina de Messi, outras coincidências históricas ligavam o sinal amarelo dos hermanos. Em 87, o Uruguai eliminou a anfitriã albiceleste e, pouco depois, foi campeão.

Além disso, o que é mais importante: era dia 16 de Julho. Dia do Maracanazzo.

Os próprios uruguaios faziam questão de lembrar a data histórica. Poucos minutos antes de Oscar Ruíz apitar, via-se na torcida uma bandeira com os dizeres “con el alma de Obdulio”, referencia ao craque celeste que liderou a vitória contra o Brasil na Copa de 50.

Enfim, se os supesticiosos tinham que apostar, não tinham dúvidas: Uruguai nas semi.

E deu no que deu.

O Cemitério de Elefantes fez mais uma vítima: a seleção do melhor jogador do mundo.

E os argentinos têm um ditado: “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay” (não acredito em bruxas mas que elas existem, existem). A bruxa estava solta no estádio.

Muslera nunca foi um grande goleiro. Nunca conseguiu se firmar na Lazio e, não à toa, vai jogar a próxima temporada na Turquia. Mas, contra a Argentina, fechou o gol.

Batista e seus comandados até engatavam, chegavam na área, finalizavam bem. Mas a bola não entrava, e o Barão advertia, brilhantemente: parecia o jogo do Peñarol contra o Vélez, na Libertadores. Aquele jogo em que os argentinos tiveram um pênalti a seu favor no último minuto, e chutaram na trave.

E o jogo foi para a marca de cal, pra ficar mais dramático. Tévez, que sempre foi ótimo cobrador, cantou o lado direito. Muslera pegou.

Os uruguaios não erraram uma. E fizeram aquilo que mais gostam: calaram a torcida da casa.

Não, a celeste não tinha mais time. Suárez e Forlán são jogadores sensacionais. Mas todo o resto do time não é mais do que mediano.

O meio-de-campo albiceleste tem Di María, Gago, Cambiasso. O ataque tem o melhor do mundo.

A questão foi: como sempre, os uruguaios jogaram com raça, para a alegria de quem adora lugares-comuns.

E Nélson Rodrigues dizia que a seleção brasileira seria uma máquina se molhasse sua camisa com o suor dos uruguaios. A frase é linda, o cara é um gênio e tem licença poética. Mas se fizermos uma análise fria, sabemos que não é bem por aí.

Outro escritor não menos brilhante, o uruguaio Eduardo Galeano, já advertiu que a confusão entre raça e violência matou grandes clubes charruas, como o Peñarol. E Tostão já escreveu que é obrigação de todo profissional dar o seu máximo, sempre.

Mas mais do que ser um time raçudo, o Uruguai é simplesmente um time. Um time unido. A Argentina não é, e pode vir a ser se, finalmente, resolver contratar um técnico, e se Messi não continuar se achando um estranho no ninho. Mas por enquanto, o retrato da albiceleste de Checho Batista é o volante Mascherano, que foi expulso e atirou sua tarja de capitão no gramado.

Já no Uruguai não tem isso. Não tem um craque que é olhado com desconfiança. Às vezes, é verdade, alguém apela para a porrada. Às vezes a sorte faz milagres. Mas isso poderia não ser o suficiente, caso o time fosse uma bagunça.

Além disso, quando os penais começaram, todos os charruas se abraçavam. Do outro lado, Messi não era abraçado por ninguém. Os brasileiros hoje, então, mal encostavam um no outro. E se Cacha Arévalo saiu de campo lembrando o aniversário do Maracanazzo, nunca vou me esquecer que Robinho não sabia quem era o Nilton Santos.

E taí: não será essa, talvez, a diferença? Forlán e cia, jogam por um país de 4 milhões de habitantes, um país que para quando tem jogo da seleção. Muitas outras seleções, preferem jogar para os patrocinadores. Muitos jogadores preferem jogar por seu país pra se auto-promover. Muitos torcedores mundo afora simplesmente não se identificam com suas seleções, e preferem esculhambar seus técnicos na derrota a elogiar seus jogadores na vitória.

No Uruguai não é assim. Nem Oscar Tabárez xinga a imprensa, nem os jogadores fazem propaganda de cerveja vestidos de gladiadores. Todos apenas amam seu país intensamente, e entendem que o futebol é um esporte coletivo.

E só por isso, mais do que nunca, a seleção uruguaia é um exemplo para a América.