As chuteiras abertas da América Latina: Entre o céu e o inferno

(crédito de imagem: elsigloweb.com)

É fato: entender o sistema de rebaixamento do campeonato argentino é tão difícil quanto encontrar o Santo Graal.

Por exemplo, veja só que interessante: a quatro partidas para o fim do torneio, o River Plate ainda tem boas chances de ser campeão. Por outro lado, o mesmo River, se perder para o Olimpo nesse final de semana, pode ir direto para a zona da degola.

Sim, apesar de ser o quinto colocado da tabela nacional, “él más grande” anda perigosamente flertando com o descenso. Dependendo, começa 2012 com a faixa de campeão no peito, como pode, também, iniciar o ano na Segundona.

Como isso é possível? Vou tentar explicar.

O “hermano” que criou o maluco sistema de descenso do país, tinha um objetivo único em mente: evitar que os clubes ditos “grandes” jogassem a Série B.

Para isso, então, foi bolada a seguinte fórmula: todos os clubes da primeira divisão são ranqueados de acordo com a média de vitórias dos últimos 3 anos. A cada ano que passa, portanto, o ranqueamento muda.

Aí, a cada campeonato, os dois times com as piores médias vão direto para a segundona. Os seus dois antecessores na tabela, no entanto, disputam um quadrangular com os 3º e 4º colocados da divisão inferior. Do mesmo modo, os dois de melhor média da B, sobem direto para a A.

Aí podemos discutir: em um país como o Brasil, em que o Santa Cruz joga a Série D enquanto o Atlético Goianiense faz parte da divisão de elite, faria sentido utilizar tal fórmula?

Claro: o assunto é polêmico, pois tem seus prós e contras. Mas é aí que entra o River, o time que melhor encarna os “contras”.

Semana passada, o clube completou 110 anos. Poucos dias depois, o volante Matías Almeyda (foto), declarou que “jogaria a história do clube, contra o Olimpo”.

Aí, pode-se, também, considerar como um time, com tantas facilidades pra evitar a desgraça, conseguiu chegar a uma situação tão crítica? Isso também têm lá suas razões.

O presidente do clube de Núñez, por exemplo, atende pelo nome de Daniel Passarela.  Aquele mesmo.

Como técnico, foi ele um dos responsáveis por construir a média de pontos bisonha que “los gallinas” possuem, hoje.

Como dirigente, foi ele o cara que contratou jogadores de qualidade pra lá de duvidosa.

Sorte que existe um atenuante: as categorias de base platenses produzem grandes talentos, como o ótimo meia Lamela.

Acontece que nem isso tem adiantado muito.

A promessa Buonanotte, por exemplo, foi barrada a pouco pelo técnico J.J. López. Do mesmo modo, se o time cai, Lamela sai (já foi procurado pela Roma). Razão pela qual os torcedores mais exaltados não param de protestar.

Mas apenas lembre-se: de um detalhe o clube está em quinto lugar, com chances de ser campeão.

Não é possível que só eu ache isso uma loucura.

Claro, sou a favor dos grandes na Primeira Divisão; mas não desse jeito. Pra mim, fez campanha ruim, tem que cair. É até uma forma de incentivar gente como Passarela a não passar dois anos sem fazer nada.

Porque uma coisa é fato: o River vem pagando por anos passados. E pode acabar se tornando vítima de um campeonato cujo regulamento deveria existir para protegê-lo.

Enfim, lamentável. Queria muito ver os jovens “gallinas” jogando uma Série A, ano que vem. De preferência, aliás, uma que não fosse da Europa. Mas vamos ver o que acontece.

Por enquanto, só tenha certeza de uma coisa: o Monumental terá fortes emoções nesse final de semestre.

* Todos os Sábados, nesse mesmo espaço, Gabriel dos Santos Lima assina a coluna “As chuteiras abertas da América Latina”, onde fala do futebol do continente.