As pranchetas fora do lugar

Rueda Renato

Uma breve introdução, antes de irmos ao que interessa: em qualquer faculdade de sociologia do Brasil, há um texto do qual os alunos não escapam – As ideias fora do lugar, de Roberto Schwarz. Em uma análise brilhante, Schwarz foi um dos primeiros a demonstrar como a elite brasileira da primeira metade do século XIX, embora escravocrata, defendia ideias políticos europeus e norte-americanos que, na prática, não se ajustavam à realidade local. Assim, por exemplo, um brasileiro rico podia ir aos círculos mais chiques da sociedade carioca de então e exaltar o liberalismo, a democracia, os direitos universais do homem e do cidadão, etc, etc, apesar de ter sua riqueza produzida por… escravos.

Schwarz, percebeu que as ideias fora do lugar, desde então, são uma marca da hipocrisia que costuma reger a vida social e intelectual de nosso país. Na maioria das vezes, de fato, basta ler o noticiário pra sacar o quanto elas ainda estão a solta por aí, com suas consequências desastrosas. Pra não nos distanciarmos do futebol, podemos lembrar que, desde 2014, temos estádios padrão-FIFA para um complexo esportivo padrão-África.

Isso, no entanto, não quer dizer que as ideias fora do lugar não sejam atraentes. Eu e meus companheiros do Futeboteco, compreensiva e frequentemente, entramos em desespero com o deserto do pensamento que é o jornalismo brasileiro (salvo exceções cada vez mais raras). Os meios de comunicação, então, costumam resolver o problema: com a internet, podemos entrar em contato com as mais avançadas discussões táticas do mundo; podemos ler blogs, sites e jornais gringos, etc. Meus amigos, inclusive, o fazem muito mais e melhor do que eu.

A realidade brasileira, porém, costuma nos devolver à estaca zero, pois nem sempre aquilo que aprendemos faz sentido quando olhamos pro nosso futebol. É quando voltamos aos velhos dilemas: será que as táticas mais avançadas da Premier League fazem um time campeão da Libertadores? É melhor ter um gênio da prancheta derrotado ou um motivador vencedor?

Claro que, no limite, essas são perguntas falsas. Melhor é ter um gênio, incentivador E campeão. Só que como isso não existe, costumamos defender o ideal – até porque o contrário não fica bem.

Exemplo: raras vozes têm coragem de se opor à contratação de um Gareca, de um Osorio, de um Rueda ou de um Rogério Ceni. E todos são ideias fora do lugar. Nenhum deles deu certo. Gareca, a beira do Z4, dizia que o Palmeiras era grande e continuaria jogando “pra frente”. Foi demitido. Osorio promoveu um rodízio de jogadores irreal no São Paulo. Saiu odiado pela maioria da torcida. Rogério Ceni – embora brasileiro – fez curso de treinador na Inglaterra, trouxe auxiliar gringo e se portou como um lorde nas coletivas. Foi demitido na zona do rebaixamento e linchado pela imprensa (antes de se descobrir que era carinhosamente chamado por jogadores e comissão técnica de “o chato”).

Rueda acabou de seguir o mesmo caminho. Não se pode dizer que sai escorraçado do Flamengo, mas tampouco são muitos os que choram sua ausência. Eu mesmo não choro. Que me desculpem seus defensores, mas um treinador do time mais popular do Brasil não pode dizer por aí que ficou assustado ao ir na churrascaria e topar com torcedores pedindo a escalação de Vinícius Júnior. O rubro-negro praticamente tem em torcida o que a Colômbia tem em população. Se o que Rueda disse em sua apresentação é verdade – que ele estudava e conhecia o futebol brasileiro – ele devia saber disso muito bem.

Acontece que, em muitos dos casos, as diretorias simplesmente não sabem o que fazer quando olham pro mercado nacional de treinadores. Aí recorrem a alguém desconhecido, seja um gringo (Rueda), seja um intelectual (Rogério). Assim, falsamente dão a impressão de estar apostando em uma opção super vanguardista, ao mesmo tempo em que evitam as críticas imediatas – pois um gênio desconhecido é, até segunda ordem, um gênio. Perceba, leitor, que não estamos necessariamente falando de alguém consagrado nos principais campeonatos do mundo, como um Simeone, um Pellegrini, um Sampaolli.

Enfim, a essa altura já deve ser fácil perceber qual é a minha posição. Quero no meu time um cara que tenha trato fácil com os jogadores, que não seja incapaz de lidar com panelinhas do elenco, que se dê bem com jornalistas, que aguente a pressão da torcida, que não obrigue jogador a fazer o que não sabe e, ao contrário, extraia o melhor possível de cada um. Meus exemplos já mencionados pecaram feio em pelo menos um desses quesitos.

Não estou, com isso, defendendo a volta de Joel Santana. Teria até medo de fazê-lo, tal o predomínio das ideias modernizadoras por aqui. Digo até mais: ficaria muito feliz em ver um Guardiola desembarcando no Rio de Janeiro, desde que o futebol carioca tivesse uma estrutura catalã e jogasse um campeonato de primeiro mundo.

Só proponho uma reflexão: Renato Gaúcho é a antítese disso tudo. É um técnico tipicamente nacional. E não digo isso porque ele seja boleiro, curta uma praia e uma gelada, “fale a língua do jogador”, etc, etc. Renato é o bom treinador brasileiro por uma razão mais simples: é muito bem sucedido. Foi muito bem em Vasco, Fluminense e Grêmio. Sabe muito bem onde está e faz o melhor possível dentro de sua realidade. Se não se pode dizer que o título da Libertadores é mérito apenas dele, tampouco seria justo atribuir a taça exclusivamente ao time do Grêmio, com seus Cortezes e Jaéis cruéis.

Contudo, Renato é duplamente escanteado, tanto pela imprensa do Sudeste, quanto pelos jornalistas pós-7 a 1, ansiosos por discursos iluminadores e, curiosamente, muito pouco críticos de nossa sociedade arcaica. A essa galera, seria importante lembrar que a primeira coisa que a Alemanha fez ao chegar aqui em 2014 foi vestir a camisa do Flamengo e se abrasileirar.

Já Rueda, que não soube fazê-lo, vai tarde. Enquanto isso, Renato e a torcida do Grêmio seguem em festa, comemorando um título que os rubro-negros tentam conquistar a mais de 30 anos.