ESPN Brasil, de menina dos olhos para apenas mais um canal de esporte

Estava há bastante tempo me coçando para escrever sobre isso, mas confesso que tive certo receio. Para que não sabe, eu sou jornalista formado pela Fiam e como a grande maioria dos profissionais da área eu preciso me adequar ao mercado. E essa adequação muitas vezes é procurar ter sempre uma boa relação interpessoal com o meio jornalístico.

Só que eu sou um crítico ferrenho do nível que temos hoje no jornalismo brasileiro, sobretudo no esportivo que é a editoria que domino. Mas hoje não vou falar sobre isso, pelo contrário, eu vou falar sobre aqueles caras que sempre me serviram de espelho. Aqueles caras que eu via falando sobre futebol desde moleque nas mesas redondas da vida e, muito antes de ter me decidido seguir a carreira jornalística, eu só queria encontrá-los para estender o assunto.

Não posso negar que a ESPN era a menina dos meus olhos. O Linha de Passe então era o meu orgasmo máximo em se tratando de programas de debates. Sim, naquela época eu já sacava que não era questão do tempo que os caras se dedicam falando sobre meu time, é como eles falam. Então, programas como o do Milton Neves, que eram cotidianos na TV aberta, já não faziam a minha cabeça.

Eu queria ver o PVC, o Kajuru, o Trajano, o Juca. Esses sim tratavam o futebol como ele merecia ser tratado. Esses sim apontavam para os reais problemas que muita gente ignorava, porque não dava audiência. Aliás, um pequeno parêntese a essa palavra “audiência”. Ela é minha maior inimiga. Foi ela quem destruiu a minha menina dos olhos e transformou a ESPN no que é hoje: ainda uma boa emissora, mas que não chega nem no chulé do que um dia já foi.

Mas entre todos esses personagens icônicos que discutiam futebol, eu tinha um grande favorito: Mauro Cezar Pereira. Seu mau humor constante era a síntese da indignação que todos os jornalistas deveriam ter. Simplesmente não há alguém mais indignado com o futebol brasileiro do que o Mauro, e isso atrelado ao seu grande poder de síntese, transformava suas falas em aulas. Não só isso, transformava suas falas no que eu gostaria de ter dito mas que ainda não tinha maturidade, conhecimento e espaço suficiente para tal.

O tempo foi passando, o PVC, que claramente era o comentarista de TV fechada mais bem reconhecido, deixou a ESPN rumo a uma FOX, que aliás não poderia ter começado pior. O canal começava do zero e com exceção de alguns profissionais, dentre esses o próprio PVC, era só refugo dos refugos. Era aquele nível que você que é formado em jornalismo, ama futebol e sonha trabalhar com isso, mas por algum motivo ainda não conseguiu, sente vontade de bater com a cabeça na parede.

Eu sei como isso soa arrogante e é por isso que nunca expressei esse tipo de sentimento publicamente, mas sigamos…

Trajano, coitado, a cada dia era mais podado. Suas análises épicas sobre coisas que muitas vezes nada tinham a ver com esporte eram cada vez menos constantes em suas aberturas clássicas no Linha. Até que para a minha indignação, talvez a maior até hoje com relação à postura da ESPN Brasil, o cara que fundou o canal foi demitido. Pode isso? Ali morria 50% da ESPN Brasil, pelo menos no meu coração.

Aliás, a demissão do Trajano só fechou o caixão do que eles tinham feito com meu programa predileto: o Bate-Bola primeira edição, que começava exatamente às 13h e tinha um elenco absolutamente sensacional, composto por João Carlos Albuquerque (que para mim é um gênio), Lúcio de Castro (calma que esse merece um parágrafo só para ele), PVC e meu ídolo Mauro Cézar. Ouso dizer que foi o melhor programa de esportes da minha geração.

E não é que eles transformaram um dos melhores programas de todos os tempos num show de horror, cujo único indivíduo digno de elogios que sobrou foi o Mauro, que aliás pouco aguentou permanecer naquela edição do programa. Não o conheço, nunca falei com ele, mas tenho para mim que ele deve ter pedido “pelo amor de Deus” para ir para a edição noturna, que contava ainda o genial Canalha, o ótimo Paulo Calçade e Gian Oddi.

De todas as perdas do clássico Bate-Bola, a que eu nunca consegui entender foi a do Lúcio de Castro, que para quem não se lembra era o gordinho do Rio (pelo menos era assim que meu pai se referia a ele). O cara é pura e simplesmente um dos maiores jornalistas investigativos do país e, em matéria de esporte não tem para ninguém. Vocês se lembram do Dossiê do Vôlei, matéria que foi repercutida até no Jornal Nacional? Se não, a pesquisa vale a pena. Até entrevistado pelo Jô Soares o cara foi, aliás, não só entrevistado, mas como tietado pelo apresentador.

As decisões desastradas em sequência da direção da ESPN Brasil transformou o único canal que eu sentia que me representava e tratava o meu amor pelo esporte com respeito em apenas mais um canal esportivo, com qualidades e defeitos como qualquer outro.

Claro que nem tudo foi desastre. Algumas adições, como o Mario Marra (que não entendo como não faz parte do time do Linha) e Rafael Oliveira (o maior nerd futebolístico que já vi), além da disponibilização de mais espaço para aquele que eu tenho como melhor narrador da TV fechada hoje, Rômulo Mendonça, tornam a ESPN ainda especial. A cobertura deles, embora ignorem meu time (Santos) quase que por completo, é ainda a que mais me chama a atenção.

Mas nada se compara ao que a ESPN Brasil já foi um dia, então, por isso, só me resta recordar e lamentar…