As chuteiras abertas da América Latina: De de Arrascaeta pra Galeano

(Por Gabriel Lima)

Morreu hoje, aos 74 anos, o escritor uruguaio Eduardo Galeano.

Em um primeiro momento, você pode estar se perguntando o que isso tem a ver com futebol -o tema desse blog. Pois tem muito mais do que parece à primeira vista.

Galeano – autor da célebre obra As veias abertas da América Latina – foi quem deu nome a essa saudosa coluna que, desativada há algum tempo, reviveu hoje apenas para homenageá-lo.

Mas obviamente Galeano é mais do que isso.

Já disse isso aqui no blog uma vez e direi de novo: se você ainda não leu um livro chamado Futebol ao sol e à sombra – a compilação de algumas das melhores crônicas já escritas na história da humanidade – vá correndo à livraria mais próxima.

É bem verdade que a bola e a literatura nunca se bicaram muito. No mundo da segunda, a primeira é considerada por muitos um instrumento de menor importância. Há, inclusive, quem diga nas bibliotecas que não compreende o fato de 22 homens passarem 90 minutos se digladiando por algo supostamente tão besta.

Pois Galeano não apenas provou que esse desprezo pedante pelo ludopédio não passa de uma incompreensão do espírito humano, como misturou a arte de escrever com a arte de driblar em uma maravilhosa epopeia narrativa, transformando os campinhos de terra de Montevideo em uma metáfora da nossa existência.

Galeano fará especial falta em um mundo onde perdemos Armandos Nogueiras e Nelsons Rodrigues, enquanto nos sobram aquilo que o uruguaio chamava de “los doctores del fútbol”. E essa falta será especialmente sofrida em uma América Latina onde a crônica esportiva é capaz de passar horas e horas discutindo um pênalti, sem atentar para a maravilha da finta, o orgasmo do gol e a apoteose das hinchadas.

Nada mais previsível: estamos condenados a chorar a ausência das delícias desta nossa “guerra dançada”. Galeano já sabia, há tempos, que “à medida que o esporte se fez indústria, foi desterrando a beleza da alegria que é o jogar em si”.

Por isso são cada vez mais escassos os passos em falso de Garrincha, como é cada vez mais escassa a alegria do povo. Sobram Galeanos como aquele volante grosso do Palmeiras; falta a ousadia e a alegria do menino Neymar. E mesmo quando esta última desponta como a flor que nasce na rua, rapidamente se converte em desgraça do craque, transformado em malabarista inútil pela sociedade do espetáculo e perdido em meio às tentações da vida milionária.

Eduardo Galeano – o grande mestre das ramblas – sabia mais do que ninguém que esse mundo das Arenas patrocinadas é antagônico à essência do futebol, assim como o mundo da produção capitalista é contrário à essência do homem. Galeano sabia que a magia se opõe à técnica como o drible se opõe à retranca. E, sobretudo: sabia que mais importante do que o bicho que sucede a vitória, está a virtude fraterna que precede o apito inicial.

Essa é, no final das contas, a virtude do capitão uruguaio da Copa de 50 que, além de calar o Maracanã, foi chorar nos botecos do Rio de Janeiro ao lado dos brasileiros humilhados. Essa é, no final das contas, a virtude do beberrão Eric Cantona que afirma que a jogada mais linda de sua vida foi um passe – nos ensinando que, se não confiamos nos nossos companheiros, não somos nada. Essa é a virtude do atacante Nene Sanfilippo que, ao lembrar seu gol de chaleira em uma final do Argentinão, levou às lágrimas os caixas de um Carrefour de Buenos Aires, construído no terreno onde ficava o antigo estádio do San Lorenzo.

Por isso o futebol é sinônimo de resistência. Muitas vezes, nas quartas-feiras derrotadas do cotidiano, é ele quem teima em nos ensinar que o mundo caminha numa marcha errada. É ele quem teima em nos ensinar nos botecos e nas bancadas que, mais importante do que a taça, está o prazer da disputa.

Galeano, por exemplo, escreveu muito sobre os séculos de saque que se seguiram à chegada das caravelas de Colombo à uma ilhazinha no Atlântico Central. Igualmente, escreveu muito sobre as ditaduras que foram necessárias ao imperialismo para impedir que nosso continente caminhasse por suas próprias pernas. Graças a isso, foi perseguido, diferentemente daqueles que, hoje, sequer têm hombridade para levantar a voz em defesa do Bom Senso. Mas, segundo o brilhante cronista uruguaio, foi em meio à tristeza da repressão em seu país que ele aprendeu uma valorosa lição, ao ver meninos montevideanos que voltavam da pelada cantando: “ganhamos/ perdemos / igual nos divertimos”.

Durante essa segunda-feira, assistindo à reprise da pintura de De Arrascaeta contra o Atlético Mineiro, foi impossível não lembrar de tudo isso.

Quem não gosta de futebol, mal sabe que uma caneta de um meia porteño por entre as pernas de um marcador pode nos ensinar mais do que a caneta Mont Blanc de mil intelectuais. Quem não gosta da bola, mal sabe que as fintas de um habilidoso charrua – como aquelas fintas do Peñarol que encantaram nosso homenageado durante a década de 60 – são alegorias dos dribles que, diariamente, somos obrigados a passar nos zagueiros brucutus da vida. Não é à toa que, durante a Copa do mundo, Galeano colocava em sua porta uma plaquinha em que se lia: “fechado para o futebol”.

Chico Buarque, amigo de Galeano (assim como Sócrates), cantava que sem um carinho, um cigarro e uma cachaça, ninguém segura esse rojão. Sem nosso time duas vezes por semana, a coisa também fica difícil. Pois é por meio de um gol como o do de De Arrascaeta que nos reaproximamos de nós mesmos. Às vezes é preciso vir um uruguaio para nossos gramados, nos lembrar que Eduardo Galeano continuará mais vivo do que todos os doutores do futebol juntos. Afinal a vida é breve, mas a arte é longa – nos livros e nos estádios.