Somos piores?

Não é de hoje que o futebol brasileiro precisa mudar.

Curiosamente, grande parte da imprensa e dos governantes só se deu conta (ou fingiu se dar conta) disso depois do fatídico vexame canarinho na Copa do Mundo de 2014.

Antes tarde do que nunca: se não aproveitarmos a mais bisonha derrota da História da nossa seleção para refletirmos um pouco, não o faremos jamais. Acontece que o buraco é tão embaixo, passando por uma gama tão vasta de problemas, que muitas vezes tudo se confunde e o debate se transforma num chororô inócuo.

De minha parte, tenho acompanhado o quiproquó, principalmente onde as reflexões surgem com mais qualidade – isto é: nos textos e comentários de jornalistas como Juca Kfouri, Tostão, Mauro Cézar Pereira, PVC e – porque não dizer? – neste recomendável blog.

Para todos que não compreendam o futebol brasileiro como um reality show da rede Globosat, uma coisa é óbvia: é necessário repensar toda a estrutura do nosso esporte, passando pelo loteado ministério do PT; pela precária condição das nossas categorias de base; pela absurda irresponsabilidade fiscal de nossos clubes (como vem denunciando o Bom Senso F. C.); pela irracionalidade do nosso calendário (como novamente vem denunciando o Bom Senso F. C.); até chegar, em um âmbito mais profundo da problemática, no imperialismo ludopédico exercido pelos campeonatos europeus e orientais sobre nossas equipes. Qualquer reflexão nesse sentido, independente de para onde ela aponte, é mais do que bem vinda.

No entanto, atualmente, há um discurso que pega carona nessa onda e revela uma faceta da nossa alma tão antiga quanto o Maracanazzo. Me refiro aqui ao complexo de vira-lata que Nelson Rodrigues já havia percebido em 1950.

Sim: enquanto falamos sobre a necessidade de reorganizar o futebol nacional, a boa e velha mentalidade colonizada insiste que tudo que sai de terras latino-americanas é indiscutivelmente inferior às maravilhas da Champions League. Como sempre, somos inferiores em tudo.

E eu me pergunto: somos mesmo?

Que o leitor me entenda: acho que o futebol brasileiro regrediu, sim, em comparação com o que era na década de 90. Também não coloco em questão a inferioridade dos melhores clubes tupiniquins em relação a Barcelona e Real Madrid. Mas vejamos um exemplo:

Na semana passada, o Bayer Leverkusen começou com pé direito o mata-mata da Champions. Vitória por 1×0, com direito a golaço de Calhanoglu. E o adversário não era um Zé-ninguém. Longe disso, era o Atlético de Madrid, dirigido por Simeone – o finalista de 2014, que só não foi campeão por um detalhe, reforçado com Griezmann, Mandzukic e Torres. Ou seja: os alemães mandaram muito bem, e quem viu o jogo sabe que não foi por sorte.

Agora voltemos uns dois meses no tempo e lembremos para quem esse mesmo Leverkusen perdeu na pré-temporada desse ano. Sim, leitor: nada mais do que o Corinthians.

Claro que foi apenas um jogo. Claro que era começo de ano. Mas quem aí lembra que o próprio Guardiola sempre elogiou efusivamente a preparação física, bem como o esquema de jogo do time alemão, chegando inclusive a acompanhar alguns jogos na Leverkusen Arena quando dirigia o Barcelona?

Resumindo: um dos 16 melhores times da Europa atualmente, confessadamente admirado pelo supra-sumo da tática catalã e capaz de superar o vice-campeão do velho continente, foi derrotado por uma equipe paulista que nem sequer é unanimidade como melhor elenco do Brasil.

Aí eu me pergunto: e se fosse o Timão contra o Atlético de Madrid? Será que não dava jogo? E se fosse o São Paulo contra o mesmo Arsenal que acabou de ser encaçapado pelo Monaco?
Se fosse o Cruzeiro de 2014 contra o Granada, não tenho dúvida que seria um massacre. Mas espera aí: não foi esse mesmo Granada que derrotou o Barcelona no ano passado?

Onde quero chegar é: dizer que o futebol brasileiro é inferior ao futebol europeu é um lugar comum extremamente discutível. Afinal, o que é o futebol europeu? É Barcelona e Real Madrid, ou é também o Granada, o West Bromwich e o Hannover 96? É Bayern de Munique, ou é também o Benfica campeão da Copa UEFA, onde brilham os brasileiríssimos Talisca e Lima – este último quase dispensado pelos Santos?

Me parece óbvio que os clubes de nosso país são inferiores aos semi-finalistas da Champions. Mas também me parece inquestionável que, se colocarmos um dos nossos melhores para disputar o campeonato espanhol (ou inglês, ou alemão, ou italiano), ele brigará no G-4.

O que aconteceu na última década – isso sim – foi uma concentração dos melhores jogadores em poucas equipes. Hoje, basta alguém se destacar na Bundesliga para ser levado pelo Bayern de Munique. Lewandowski e Goetze estão aí para provar.

Aí sim, se pegarmos o Bayern, o Manchester e o Real, a superioridade é indiscutível. É quase outro esporte. Mas o mesmo é válido para a comparação entre estes e seus conterrâneos menores.

A questão é que, nos anos 90, esses “menores” tinham pelo menos um ótimo jogador. A Lazio tinha Nedved. A Fiorentina, Batistuta. O La Coruña chegou a ser campeão espanhol e o Valencia, até pouco tempo atrás, sustentava 90 minutos em pé de igualdade com o Barça.

Mas naquela época também tínhamos Romário, Edmundo, Marcelinho e Raí. Então podemos e devemos nos perguntar porque não temos mais tantos nomes assim. Aliás, podemos questionar inúmeras questões acerca do nosso futebol. Mas não achemos que somos tão piores assim, sob o risco de eclipsarmos as nossas verdadeiras inferioridades estruturais. Senão, parece a Petrobrás: todo mundo fala mal, pra comprar mais barato lá fora.