O deserto da prancheta

Ricardo Gareca é um técnico medíocre. E antes que algum palmeirense me apedreje, já esclareço: digo “medíocre” sem a conotação depreciativa que a palavra adquiriu nos últimos tempos. Digo “medíocre” no sentido de média.

Afinal, qualquer um que acompanhe minimamente o futebol argentino sabe que Gareca é um técnico mediano, cujos títulos se devem em grande parte ao fato de ter dirigido o melhor elenco da Argentina no período pré-San Lorenzo.

Acontece que, curiosamente, o hermano se tornou a grande esperança nacional de renovação futebolística. E o pior: isso é compreensível.

Vivemos no deserto da tática. Poucas vezes isso foi tão visível quanto nas últimas duas rodadas do Brasileirão.

Um exemplo claro: Muricy Ramalho. Cogitado para assumir a cadeira de Scolari, não foram poucos os que defenderam o nome do comandante tricolor para homem chefe da seleção. E no entanto, seu time, com um dos melhores elencos do Brasil, segue apresentando um futebol absolutamente deplorável.

Muricy se arvora de acompanhar muito futebol. Não duvido que acompanhe, mesmo. Mas, pelo visto, se acompanha, não aprende nada. Porque eu – que não sou nenhum especialista na prancheta – vi todos os jogos da Copa e posso dizer o que aprendi.

Aprendi que jogadores devem trocar de posição, como a Holanda de Van Gaal, que confundia laterais e pontas; com a mesma Holanda, aprendi que zagueiros devem saber jogar, pra puxar contra-ataques e fazer a transição defesa-meio rapidamente. Com a Alemanha, aprendi que um bom meio-de-campo precisa ter armadores que marcam forte e chegam na área pra finalizar. Com a Argentina, aprendi que uma boa marcação exige dedicação integral dos onze jogadores. Com o Chile, aprendi que bons volantes também armam e atacam, e que é possível jogar no 3-5-2 sem fazer disso uma retranca estéril.

Mas Muricy não entendeu nada disso, aparentemente. Seu time teve quase dois meses só pra treinar, e segue com uma defesa tenebrosa, absolutamente insegura na saída de bola e batendo cabeça em todos os cruzamentos. Os volantes seguem sendo os mesmos cães-de-guarda brucutus de sempre. Ganso, então, já deixou de existir. As únicas jogadas são aquelas mesmas de 2005: chuveirinho da intermediária, ultrapassagem dos laterais para cruzar pro centroavante e uma ou outra correria dos alas nas costas dos zagueiros adversários.

Agora, recapitulando: esse é o técnico que foi cogitado para comandar a tal reformulação da seleção brasileira.

Enquanto isso, o Flamengo “aposta” em Luxemburgo, o Atlético-MG ressuscita Levir Culpi e o Grêmio demite Enderson Moreira pra trazer o mesmo Felipão cuja defesa, na Copa do Mundo, tomou 10 gols em dois jogos. Os únicos técnicos que parecem minimamente atentos ao futebol praticado na Europa – Marcelo Oliveira e Mano Menezes – são os líderes do campeonato.

Será isso uma mera coincidência? Será que não está na hora de parar de apostar nos motivadores e começar a valorizar um pouco mais o conhecimento tático? Será que não está na hora de deixar os velhos medalhões de lado e confiar um pouco mais nos jovens? E não estaríamos sendo contraditórios ao elogiar a descontração alegre da Alemanha e continuar acreditando em “professores” militarescos? Não estaríamos sendo contraditórios ao admirar o humilde Joachim Löw e trazer o fanático Dunga pra fazer as vezes de testa de ferro da CBF?

Pensemos nisso. Pois se é verdade que o futebol brasileiro precisa de uma revolução, a tática é um dos campos em que estamos mais gritantemente defasados. E não há revolução que não comece por uma mudança de mentalidade.