Mantenha o respeito

(Crédito de imagem: Getty)O Sevilla pode esperar: hoje o assunto é Libertadores.

E, pra falar do torneio, nada melhor do que o ótimo jogo entre Cruzeiro e San Lorenzo – duas das melhores equipes das Américas.

O manual do senso comum previa vitória dos mineiros. Os pachequistas mais inflamados chegavam a dizer que seria fácil para o time de Marcelo Oliveira. Quase nenhum brasileiro cogitava que um hermano fosse capaz de derrubar o campeão nacional.

Pois aconteceu.

É verdade que o San Lorenzo sofreu. É verdade que, em mais de uma oportunidade, a classificação foi salva pela bela atuação do goleiro Torrico. Inclusive, não é nenhum exagero dizer que o Cruzeiro jogou melhor. Mas a História se repetiu: assim como aconteceu com o Grêmio nas oitavas, o “favorito” da imprensa brasileira caiu fora.

E depois da bola de Marcelo Moreno bater nas duas traves, pode parecer tentador achar que o triunfo do Ciclón se deve a um milagre do Papa Francisco, seu torcedor mais famoso. Mas basta acompanhar um pouco mais a trajetória do San Lorenzo para perceber que não é bem assim.

O clube de Almagro, como disse acima, tem uma das melhores equipes do continente. Valdés, Más, Ortigoza, Mercier e Piatti: todos esses jogadores seriam titulares de pelo menos 18 times da elite do campeonato brasileiro. Isso pra não falar no excelente técnico Edgardo Bauza, que protagonizou o Maracanazzo de 2006 contra o franco favorito Fluminense, e que certamente faria ótimos trabalhos na terra em que Luxemburgo ainda é cogitado por times grandes.

Mas na maioria dos casos, tudo isso é copiosamente ignorado pelos brasileiros. Quando um Cruzeiro ou um Grêmio caem, quando o Flamengo assiste atônito ao toque de bola do León do México em pleno Maracanã lotado, jogamos o fracasso no colo das nossas próprias equipes. Sempre somos nossos maiores rivais: os outros nunca têm méritos.

É verdade: o nível do futebol brasileiro anda muito baixo. O do argentino, então, mais baixo ainda. Mas é preciso admitir que, nesse contexto, é perfeitamente possível que uma equipe de outro país supere nossos times. Esse é o caso do San Lorenzo: apesar de disputar os medíocres apertura’s e clausura’s, brigaria por título no Brasileirão.

Admitir isso, inclusive, abre um caminho para os brasileiros. Afinal, até agora, um dos melhores jogadores da nossa série A é o chileno Aránguiz, ex-Universidad de Chile. Isso pra não falar nos já consagrados Conca e D’Alessandro, também pinçados em times hispano-americanos.

Longe de defender o sub-imperialismo brasileiro (é importante até para nós que os países hermanos fortaleçam seus campeonatos), penso que times como São Paulo, Palmeiras, Corinthians e Flamengo se beneficiaram muito se olhassem mais para o mercado sul-americano.

E, sobretudo, penso que evitaríamos fracassos se respeitássemos mais os times que disputam a Libertadores. Ontem, o Cruzeiro entrou nitidamente desatento. Resultado: tomou um gol em sua própria casa, logo aos 10 minutos de jogo. Depois acordou e pressionou. Mas porque já não começou acordado?

É verdade que o Brasil hegemoniza a Libertadores há algum tempo. Nos últimos 10 anos, nossos clubes chegaram em 8 finais. Mas é preciso manter o respeito. Afinal, assim como a canja de galinha, respeito nunca fez mal a ninguém.