A salvação de Ganso

(Crédito de imagem: Alexandre Battibugli)

Qual a sua opinião sobre Paulo Henrique Lima, o Ganso?

Essa simples pergunta, dirigida a mim pelo também colunista do Futeboteco, Gabriel Lima, despertou uma antiga vontade minha: dizer o que penso sobre o meia.

Ganso teria enganado todos aqueles que o colocaram como principal jogador do futebol brasileiro em 2010, ou a todos aqueles que, no mesmo ano, defenderam arduamente a sua convocação para a Copa da África do Sul?

A resposta é: não!

E a minha tese para este sonoro “não” é uma crítica direta à maioria dos treinadores brasileiros e à forma como este país trata algumas raríssimas joias oriundas dos nossos gramados.

Ganso é um armador. Ponto final. Ele não é, e nunca será, um ponta de lança, como Muricy Ramalho tanto insiste. Os cansativos pedidos do treinador, via imprensa, para o camisa 10 entrar na área, são prova disso.

Entenda…

No Brasil e no mundo, atualmente, o esquema tático mais utilizado é o 4-2-3-1, pois é a estratégia que talvez preencha melhor todos os espaços do campo, tanto para o ataque quanto para a defesa. Pois bem…

Como típico armador, Ganso é maltratado nas mãos de Muricy, desde a época de Santos, sendo escalado como meia central ou ponta de lança. Isto é, como aquele que tem a obrigação de cair pelos lados (aliás, este é outro pedido frequente do treinador), entrar na área e, também, ser artilheiro.

Agora eu pergunto a você, leitor: o que seria de Pirlo, Xavi, Schweinsteiger, Thiago Alcântara e Kross, se fossem escalados na mesma função?

É simples. Na Europa, o tratamento aos raros armadores existentes neste planeta é completamente diferente.

São eles que tem a função de começar as jogadas. Por isso, neste esquema utilizado pela maioria dos clubes, eles viraram volantes. Tanto segundos, como até primeiros homens de meio-campo.

Isso faz com que estes atletas circulem num espaço do gramado cuja ocupação do adversário é muito menor, rendendo espaço e tempo necessários para que eles não apenas iniciem as jogadas, como, também, ditem o ritmo do jogo.

Não, mas como assim? E quem marca neste time?

Certamente essa seria outra pergunta que, no Brasil, surgiria vez ou outra. É simplesmente ridículo achar que precisamos de um “cão de guarda” para que a defesa esteja protegida.

Os maiores times da história do futebol cansaram de provar que a melhor defesa é o ataque e as qualidades individual e coletiva de seus jogadores.

Será que os que defendem tal ponto de vista não se recordam da escalação da seleção brasileira tricampeã em 1970? Os volantes eram simplesmente dois dos melhores armadores do mundo na atualidade: Gérson e Clodoaldo.

Há também, nos tempos atuais, outras táticas defensivas que dispensam o volante tipicamente marcador. Uma delas é a compactação. Quando se tem uma equipe compacta, automaticamente o espaço de atuação e saída do adversário diminui.

Outra alternativa muito usada atualmente é a marcação sob pressão, que é exercida principalmente pelos jogadores que compõe o ataque.

Dessa forma, enquanto o Brasil e seus técnicos continuarem detendo pensamentos ultrapassados, joias como Ganso continuarão sendo maltratadas nos gramados por aqui.

Por que, então, o Ganso de 2010 deu tão certo?

A primeira resposta é a confiança do jogador, que vivia o auge da carreira. Porém, além disso, lembremos como era formado  aquele ótimo time.

Com Neymar, Robinho e André compondo o trio ofensivo e, por muitas vezes, Marquinhos fazendo a função de meia-central, Ganso exercia a função de volante, pelo menos quando a equipe tinha a posse de bola.

Era Ganso quem ia buscar as bolas de Edu Dracena e Durval e exercia a função de comandar o meio-campo. Ele não precisava ser quem Muricy pede. Ele não corria, como hoje, mas fazia a bola correr. Palmas para Dorival Júnior!

Há também alguns questionamentos sobre as tantas lesões de ligamento no joelho do atleta. Se elas ainda não atrapalhariam o desempenho de Paulo Henrique.

Apesar de não ter conhecimento clínico algum, observando as partidas do São Paulo, eu não vejo nenhuma limitação física que difira o jogador atual daquele que encheu meus olhos em 2010. Posso estar errado.

De qualquer forma, só saberemos se minha tese está correta no momento em que algum técnico que o dirige pensar da mesma forma. Quando isso acontecer, ai me sentirei muito mais apto a deferir elogios ou críticas a Ganso.