As chuteiras abertas da América Latina: 110 anos em noventa minutos

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110 anos de existência, diversos craques revelados, uma das maiores camisas do futebol argentino. Tudo isso posto em xeque em uma partida de noventa minutos.
Essa é a situação atual do Club Atlético River Plate. O clube que fez uma temporada razoável e podia até estar na Libertadores. O clube que, amanhã, viverá o momento mas crítico de sua História.
Quarta-feita passada, minutos antes de Peñarol e Santos entrarem em campo para decidir o torneio mais importante do continente, os olhos da Argentina voltavam-se para outro local: o estádio Gigante de Alberdi.
Era lá que o fraquíssimo Club Atlético Belgrano impunha um vergonhoso 2 x 0 ao River, enquanto os torcedores Millonarios invadiam o campo para agredir os jogadores. O desolado técnico J. J. López, mal continha as lágrimas.
Atualmente, para Los Gallinas, só resta uma opção: reverter o resultado. Ou isso, ou a segunda divisão, desonra que Boca, Independiente, Racing e San Lorenzo jamais enfrentaram.
Sim, aqui cabe lembrar: o River não fez uma má campanha nessa temporada, tampouco tem um time merecedor de tanta desgraça. Mas foi vítima do feitiço que existia para protegê-lo.
Já tratamos, aqui na coluna, do maluco rebaixamento argentino, que privilegia os grandes e raramente os condena à degola. Pois é esse sistema que pode degolar o River amanhã.
Veja: não sou contra tentar manter os clubes grandes, de maior torcida, na primeira divisão. Mas sou contra o fato da administração Passarela ter afundado a média de pontos da equipe sem ter sido devidamente punida (já que o time não podia ser rebaixado). Também sou contra a injusta crucificação de jogadores (e técnico) que fizeram uma campanha digna, mas foram precedidos por profissionais incompetentes.
Diego Simeone já falou que tem uma parcela de culpa na via-crucis portenha. E tem mesmo. Muitos outros o tem. Só não é o caso do ótimo meia Erik Lamela, do artilheiro Pavone, e do técnico J. J. López que pegaram o time já a meio caminho da Promoción.
Aliás, outra coisa é clara: o problema do River é muito emocional. Não à toa o time vinha bem, e decaiu nas últimas 5 rodadas, depois que perdeu do Boca. Até por isso, e pelas invasões de campo em Belgrano, não se deve achar que decidir no Monumental é vantagem.
E se não se pode deixar de levar em conta a relação promíscua dos cartolas do clube com suas violentas torcidas organizadas, ou com empresários gananciosos que sucateiam categorias de base, eis o problema: nada disso foi lembrado no início da gestão Passarela. E pelo mesmo motivo já citado: o clube não podia cair.
Enfim, o River já se salvou de desgraças similares, graças a esse mesmo sistema de rebaixamento que, hoje, quer o derrubar. O destino pediu a conta. O problema vai ser sacrificar um bom e inocente elenco para quitar a dívida. O problema vai ser aguentar a fúria dos barra-bravas que a diretoria gallina fez questão de alimentar. O problema vai ser decepcionar a segunda maior torcida do país.
Por isso, se for pra cair, que caia Passarela, também. E que toda essa loucura de promoción seja revista.
E se for pra se salvar, boa sorte a Los Millonarios. Que Pedernera, Labruña, Moreno, Ojeda, Carrizo e Francescoli estejam presentes.

* Todos os sábados, nesse mesmo espaço, Gabriel dos Santos Lima assina a coluna “As chuteiras abertas da América Latina”, onde fala do futebol do continente.