As chuteiras abertas da América Latina: Virou pó

renteria_gcom625 de Setembro de 1993. Estádio Monumental de Nuñez.

Ao ouvir o apito do uruguaio Ernesto Filippi, mais de 60 mil “hínchas” se levantam para aplaudir a seleção vitoriosa.
Mas não é o que você está pensando, caro leitor: a “seleção vitoriosa” não era a Argentina. Na verdade, a albiceleste acabara de tomar uma surra histórica.
Os aplausos eram para a Colômbia. A Colômbia de Valderrama, Rincón e Asprilla. A melhor Colômbia de todos os tempos. E os 5 a 0 daquela tarde eram apenas o aperitivo do que a Amarilla faria na Copa América daquele ano.
Acontece que, conhecendo essa história e sabendo que, hoje, os profissionais do melhor time do país vivem em regime de escravidão, é inavitável se perguntar: “o que diabos, afinal, aconteceu com o futebol colombiano?!”.
Eu respondo: virou pó. Literalmente.
Isso mesmo que você ouviu: hoje, o Once Caldas existe graças a trabalhadores escravos. Seu melhor jogador, Rentería, chegou ao clube em Janeiro e, até hoje, não recebeu um salário. O técnico, Juan Carlos Osório, já é credor de seis meses.
Isso pra ficar só no líder isolado do campeonato local, único colombiano ainda vivo na Libertadores.
Imagine, você, como está o resto.
Triste? Sim, e no resto do continente não é muito diferente. O problema é que, na Colômbia, o buraco é muito mais embaixo.
Quem explica é Francisco Maturana, o técnico que comandou os 5 a 0 do Monumental de Núñez: “quando os chefes de cartéis foram presos, acabou o dinheiro. Acabando o dinheiro, acabou o futebol”.
Que cartéis? Os cartéis do narcotráfico. Os cartéis de Medellín e de Cali. Aqueles comandados por figuras como o mega-traficante Pablo Escobar, que mandava cocaína para os EUA por meio de submarinos.
A bem da verdade, em alguns clubes, entrou dinheiro até das FARC.
Só que, a partir de 2005, começou o desmantelamento do narcotráfico colombiano. Desmantelamento esse que culminou com a prisão de Juan Carlos Ramírez Abadía, no Brasil, em 2007.
Aí, como diria o ditado, “acabou o milho, acabou a pipoca”.
Hoje, dos históricos Millonarios e América, até os pequenos Cúcuta e Júnior Barranquilla, todos os clubes colombianos vivem na mais absoluta situação de penúria.
Quem tem um patrocinador pra ajudar, como o Once Caldas ou o Tolima, até se vira. De resto, ninguém encara nem a Lusa.
Em paralelo a isso, as categorias de base, que até ontem produziam Iván Córdoba, Falcao García e Macnelly Torres, hoje produzem uma seleção sub-20 que é lanterna do hexagonal da categoria.
E, pra coroar, como se não bastasse, a Federação Colombiana é presidida por Luís Bedoya, amigo de carteirinha de Nicolás Leóz e Ricardo Teixeira.
Resumindo: o Once Caldas pode até virar pra cima do Santos. Até porque joga muito bem fora de casa e não é de hoje.
Só que, como diria Castro Alves, “o navio negreiro continua navegando, mas os escravos continuam no porão”.
O futebol colombiano seguirá no buraco, pelo menos até surgir um novo Valderrama.

* Todos os sábados, nesse mesmo espaço, Gabriel dos Santos Lima assina a coluna “As chuteiras abertas da América Latina”, onde fala do futebol do continente. 

Comments (3)
  1. Diego Carvalho 15 de maio de 2011
  2. Gabriel Lima 16 de maio de 2011
  3. Gabriel Lima 16 de maio de 2011